300 ANOS DAS MINAS DO PARANAPANEMA – PARTE 3

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A mineração e a religião

O período da mineração de ouro na região também marca o início da introdução do culto católico. Acompanhando o processo colonizador, nos leitos dos rios se construíram as primeiras igrejas que acompanhavam os mineiros na busca do ouro de aluvião.

A religiosidade e o culto católico que acompanhou os povoamentos de mineração das Minas do Paranapanema esteve associado às histórias de aparição da Nossa Senhora da Conceição do Paranapanema.

Conta-se que na área do Arraial Velho, região onde hoje se encontram o Parque Estadual Intervales, Parque Estadual Nascentes do Paranapanema, e Estação Ecológica de Xitué, a imagem da Nossa Senhora foi encontrada à beira de um riacho, e levada para a capela construída no Arraial.

Segundo a professora e historiadora de Capão Bonito, Alice Olivati tomando notas dos livros tombo guardados na Igreja Matriz de Capão Bonito, a primeira capela construída às margens do Rio São José do Guapiara foi formada da reunião dos mineiros que chegaram ali atraídos pela notícia do ouro. Segundo ela,

“Mesmo sendo homens rudes, sentiam solidão e tristeza, pois para esses não havia conforto nesta terra. Lembravam-se então do céu e oravam. Uniam-se na prece, sem ódio, sem distinção de raça ou classe social. E assim foi erguida neste local a primeira capela, Senhora da Conceição do Paranapanema” (Olivati, 2006 p.23).

Entretanto, o Arraial Velho foi um povoado breve, e pelos registros eclesiásticos, segundo descreve o vigário Joaquim M. Alves Carneiro em 1746¹ a população já havia

se rarefeito tanto que o padre Manoel Luiz Vergueiro, solicitou ao vigário da vara, alterar a localização da capela para a margem direita do Rio das Almas, duas léguas do arraial para o norte, onde já existiam outros estabelecimentos garimpeiros.  

O capelão alegava que atravessava um árduo caminho para atender a “cinco testemunhas inquiridas”. Dessa forma, a capela foi transferida no mesmo ano para uma a nova localidade que passou a adotar o mesmo nome da capela, “Nossa Senhora Conceição do Paranapanema”.

A freguesia era a circunscrição eclesiástica que forma a paróquia; sede de uma igreja paroquial, que servia também, para a administração civil; categoria oficial institucionalmente reconhecida a que era elevado um povoado quando nele houvesse uma capela curada ou paróquia na qual pudesse manter um padre à custa destes paroquianos, pagando a ele a côngrua anual; fração territorial em que se dividem as dioceses; designação portuguesa de paróquia (Fundação Seade, 2017).

O núcleo da Freguesia Velha, localizado à margem direita do Rio das Almas, foi o núcleo que deu origem à sede do município de Capão Bonito. Nesse local, conhecido hoje como o bairro do Sumidouro em Ribeirão Grande, se erigiu uma capela sob a invocação da Nossa Senhora da Conceição, reunindo o povoado em torno da mineração aurífera e da fé católica.

A sede do povoado foi transferida em 1843 para uma nova área da fazenda Capão Bonito, doada à igreja por Pedro Xavier dos Passos, vulgo Sucury. O vigário da Paróquia, Pe Manoel Álvares Carneiro, edificou no terreno doado uma capela, para onde foi transferida a sede paroquial, em 19 de fevereiro de 1843 e onde foi organizada a vila denominada Nossa Senhora da Conceição do Paranapanema. Pela lei de nº 03 de janeiro de 1843, a vila foi elevada a Distrito de Paz com o nome de Capão Bonito do Paranapanema, tornando – se município pela lei de nº 17 de 02 de abril de 1857 e a comarca com o nome de Capão Bonito, pela lei de nº 91, de 28 de abril de 1883. É considerado o seu fundador o Padre Joaquim Manoel Alves Carneiro.

No século XIX a população de mineiros do Paranapanema já estava composta basicamente pelos faisqueiros, remanescentes de um período áureo que há tempos já havia passado. Ainda segundo o vigário Carneiro (1850):

“Por causa do ouro sofreu o povo de Paranapanema por muitos anos as incomodidades, a escassez e a incapacidade…em meio a um ciclo áureo que há muito desaparecera, aqui, retardatário, esse ciclo tinha os últimos lampejos, sendo a povoação composta de resto de antigos bandeirantes e de velhos garimpeiros que ainda não haviam cessado de todo de faiscar por costume” (Olivati, 2006 p. 23 citando Carneiro 1850 livro 2 f.8).

Uma história paralela – A Cruz do Negro

Segundo a história oral contada por antigos moradores de Ribeirão Grande, a imagem da Nossa Senhora da Conceição foi encontrada no córrego do Guapiarinha, afluente do Ribeirão Velho, local definido pela história local como a sede do primeiro povoado local, o Arraial Velho.  A imagem da Santa permaneceu em uma capela por alguns dias quando encontrada num rio, para posterior ida ao bairro Freguesia Velha.

Não se sabe ao certo se existiu uma terceira capela, ou se a capela que abrigou a Santa foi a própria capela construída no Arraial Velho, e que posteriormente passou à Freguesia Velha. O que se sabe é que se conta que em alguma capela no caminho entre o Arraial Velho e a Freguesia Velha, em fins do século XVIII, dois escravos negros fugiram do garimpo na atual cidade de Eldorado Paulista e chegaram nas terras de Ribeirão Grande em busca de ajuda. Um dos escravos, entretanto, não suportou a viagem e veio a falecer. No local de sua morte, foi erguida uma cruz, uma capela, além de um cemitério onde se enterravam natimortos, formando o que a comunidade chamou de “cemitério de anjinhos”. O local ficou conhecido como a Cruz do Negro e lá por muitos anos se realizaram celebrações à Santa Cruz no mês de maio, além das missas periódicas, acompanhadas de celebrações, leilões, e encontros de socialização da vida no campo.

O contador de histórias Joaquim Gabriel tem um poema para essa história:

História da Cruz do Nêgo

À tarde no Ouro Fino, perto do Barro Branco. Cansado, sol a pino, encostei, no barranco.  Daqui a pouco quem eu vi? Joaquim Gabré por ali.  Andando bem no sossego, começando contar causo! Falamos da Cruz do Negô. Diga-me ô velho Gabré, homem de muita fé, como é que tudo  começou? Num tempo já bem distante, dois negrinho errante, naquele lugar chegou. Um não quietava! Mas o outro saltou para traz e para o irmão falou:

– Você não aguenta andar, fique aqui neste lugar!

– E você procura algum morador, e arranja alguma comida, se não vai ser o fim dessa vida!

E prô sertão se mandou! Andou mata adentro, só tinha um pensamento, que era em Deus nosso Senhor!  Rezando para achar um homem que matasse aquela fome, e contente ele ficou. Bem lá longe na baixada viu uma casinha barreada e quando perto chegou viu lá dentro da cozinha uma luz muito fraquinha e “ó de casa” gritou.

Apareceu uma velhina muito magra e bem pretinha e pro negrinho perguntou: o que você procura nesta noite escura? A sorte que você me achou! O negrinho respondeu: é que um irmão meu de fome adoentou. A velhinha olhou pro lado: vou lhe arranjar um virado, mas a viagem não adiantou! Vá de volta de onde veio, corte caminho pro meio, vosso irmão não aguentou.

O negrinho ficou branco, tão grande foi o espanto, e correndo ele voltou. Chegando perto do irmão, viu ele caído no chão e a história confirmou.

Ajoelhou e olhou para o céu. De repente viu um véu, e nessa hora chorou. A mesma velhinha aparece rezando fazendo prece e o negrinho falou:

Você é nossa Senhora já posso morrer agora! Ali mesmo ele tombou!

Deus no céu apareceu e os dois negrinhos morreram, e os corpos ali ficaram. A história ficou gravada, na porteira invernada, até que alguém achou.

Quem achou bendito seja! Fundou ali uma igreja e virou um rezador. Então ficou Cruz do Negro, lugar de muito sossego e a história acabou.

Contador: Joaquim Gabriel.


  1. Segundo Almeida (1959, p. 263), a Freguesia erigiu-se no Rio das Almas na data de 1735, onde permaneceu até 1850.

Pesquisas Realizadas

  • ALMEIDA, A. De. O Vale do Paranapanema. Revista do IHGB, 1959. v. 245, p. 165–252.
  • CARNEIRO, J. M. A. Primeiro Livro Tombo da Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Paranapanema.
  • CARVALHO FRANCO, F. De A. Bandeiras e bandeirantes de São Paulo. Série 5 Vo ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1940.
  • FACHINI, CRISTINA. Cartografia do Patrimônio na Bacia do Rio das Almas – SP. Tese de Doutorado apresentada ao NEPAM/UNICAMP. 2017.
  • KNECHT, Theodoro. Ouro no Estado de São Paulo, Boletim do Instituto Geográfico e Geológico, São Paulo, n. 26, 1938.
  • PLENS, C. R. “ Água mole em pedra dura , tanto bate até que fura ”: o caminho das águas na catalisação social no Brasil Colonial. R. Museu Arq. Etn., 2016. v. 26, p. 95–114.
  • REIS, G. N. As minas de ouro e a formação das capitanias do sul. Sao Paulo: Via das Artes, 2013.
  • ROBRAHN-GONZÁLEZ, E. M. Programa de diagnóstico do patrimônio arqueológico, histórico e cultural do Parque Estadual Intervales.
  • SAINT–HILAIRE, A. De. Viagem à Província de São Paulo. Resumo das viagens ao Brasil, Província Cisplatina e Missões do Paraguai. SÃO PAULO: LIVRARIA MARTINS, 1940.
  • SCATAMACCHIA, M. C. M. et al. Arqueologia da primeira casa de fundição de ouro do Brasil , Iguape , SP. R. Museu Arq. Etn., 2012. v. 22, p. 111–122.
  • ZOCCHI, P. Paranapanema: da nascente à foz. São Paulo: Audichromo, 2002.

Autoria – Amigos de Ribeirão Grande

  • Dra. Cristina Fachini, pesquisadora da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, pesquisadora associada ao Laboratório de Arqueologia Pública – NEPAM-UNICAMP.
  • Colaboração
  • Sonia Araújo – Coordenadora de Turismo de Ribeirão Grande
  • Zé do Jipe – Proprietário da empresa de Turismo Jipe Zero 4×4
  • Pedro Antônio Junior – Historiador
  • Edil Queiroz de Araujo – Responsável pelo projeto Mapa de Ribeirão Grande

Parte 2

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