300 ANOS DAS MINAS DO PARANAPANEMA – PARTE 1

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A história da mineração do ouro no Estado de São Paulo, é pouco conhecida no Brasil. Apesar de mais singela em volume de ouro que outros estados como Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, essa atividade colaborou para formação dos núcleos urbanos de importantes regiões do Estado de São Paulo, a começar da região metropolitana de São Paulo (Guarulhos, Suzano, Osasco, Itapecerica da Serra, Franco da Rocha, Santana de Parnaíba, Araçariguama), e Vale do Rio Sorocaba (Piedade, Araçoiaba da Serra); além dos Vales do Ribeira Alto e Baixo (Apiaí, Eldorado, Iporanga, Ribeira, Cananéia) e Vale do Paranapanema (Capão Bonito, Ribeirão Grande, Guapiara, São Miguel Arcanjo).

Começando pelo litoral, por volta de 1530, já se registrava a presença de núcleos de povoamento no sul da capitania de São Vicente entre Iguape e Cananéia, por portugueses e espanhóis, estes oriundos da região do rio da Prata (região limítrofe do tratado de Tordesilhas). Foi inclusive a notícia da presença espanhola em busca de minérios que fez com que a coroa portuguesa investisse maior controle nessa porção do território.

As iniciativas da coroa sobre as extrações de ouro na região, foram consolidadas em 1635, quando a primeira casa de fundição de ouro no Brasil foi construída em Iguape, a “Casa de Oficina Real da Fundição de Ouro”. Desde o Rio Ribeira, as bandeiras adentraram o sertão busca de minérios, usando muitas vezes caminhos já conhecidos pelos indígenas para isso. Pouco a pouco, com a notícia do descobrimento de ouro em fins do século XVI e início do século XVII, moradores das redondezas também começaram a adentrar o sertão, criando vários arraiais como Ivaporunduva, Iporanga, Apiaí, Xiririca (atual Eldorado) e Paranapanema.

Desde fins do século XVII já se faiscavam ouro de lavagem nas cabeceiras do Rio São José de Guapiara, também chamado de Apiaí-Mirim, mas segundo a notícia oficial, a descoberta das Minas do Paranapanema aconteceu em 21 de novembro de 1717 com a comunicação de Miguel de Barros e João Fernandes Távora, ao ouvidor de São Paulo, Rafael Pires Pardinho, e este ao Conselho Ultramarino.  As Minas do Paranapanema foram, portanto, oficialmente reconhecidas pela Coroa Portuguesa em 21 de Novembro de 1717. Se você fizer as contas verá que em 21 de novembro desse ano essa data completará 300 anos desse acontecimento. Porque essa data é importante? Porque resolvemos celebrar essa data?

Não podemos dizer que a história desse território começa a partir dessa data. Há mais de 12000 anos atrás, indígenas já haviam habitado essa região e, desde lá até 1717, muitas tribos de diferentes tradições indígenas transitaram por esse território. Tupiguaranis e Kaigangs estavam presentes na região entre o Vale do Ribeira e do Parapanema na chegada de portugueses e espanhóis e africanos por essas bandas.

Espanhóis e portugueses começaram a povoar o litoral do atual Estado de São Paulo em busca do ouro, e as notícias das descobertas de ouro foram se espalhando, até que os portugueses resolveram demarcar território através da construção de casas de fundição, postos de guarda e concessões de exploração de ouro nas sesmarias. Foi assim que o Vale do Ribeira começou a ser povoado desde o litoral, subindo mata adentro, povoando as terras em diferentes arraiais até chegar ao Paranapanema.

As Minas do Paranapanema ocuparam a região dos atuais municípios de Guapiara, Capão Bonito e Ribeirão Grande, povoando a região diferentes momentos: o Arraial Velho, a Freguesia Velha e a ocupação tropeira.

Pelas fontes históricas, que o primeiro povoado de mineração do Paranapanema, chamado de Arraial de Guapiara ou Arraial Velho, se estendeu na mesma latitude entre as nascentes dos Rios São José do Guapiara, Rio das Almas e Rio Paranapanema, que hoje estão localizados respectivamente nos municípios de Guapiara, Ribeirão Grande e Capão Bonito.encanados-12191240725_54af509efa_o

O Arraial Velho foi um povoamento de caráter temporário, cujas extrações auríferas não duraram mais de 40 anos, fruto da “pouca venda” associada à imposição de taxações da coroa. O historiador Aluísio Almeida registrou que em 1726 foi enviado a Portugal a taxação da Minas do Paranapanema equivalente à extração de 14 quilos de ouro no ano (830 oitavas), quantia pouca frente à outras minas da colônia. Vale ressaltar que o autor ainda pondera que essa quantia era feita sobre o cálculo do ouro que passava pelas casas de fundição, ao passo que nem todo o ouro extraído passava por esse processo, visto que era ouro em pó e que se distribuía entre os mineiros que o usavam no comércio local.

A mineração de ouro foi subindo o curso do Rio das Almas, até que o Arraial Velho veio a ser transferido por volta de 1746 para uma nova localidade, na margem direita do Rio das Almas, no ponto de confluência entre os córregos Lavapés e Ribeirão do Chapéu, onde recebeu o título de freguesia, e foi chamado de Freguesia Velha.

Lá é onde se encontram atualmente as instalações da Votorantim Cimentos (antiga Companhia de Cimento Ribeirão Grande – CCRG) e, em cujos rios, córregos e ribeirões se minerou desde fins do século XVII até meados do século XIX.

Já no século XIX enquanto a atividade de mineração ia minguando na Freguesia Velha, outro núcleo de povoado foi se concentrando às margens do Rio Ribeirão Grande, em torno da Casa Grande, atual bairro dos Cruzes, município de Ribeirão Grande, por volta de 1780. A Casa Grande abrigava, além da residência da família Cruz, ponto de venda e troca, utilizado pelos tropeiros que se dirigiam ao sul do país bem como pelos remanescentes faisqueiros em busca de ouro de aluvião nos rios das Almas, Conchas e Ribeirão Velho. Nessa área muitos são os contos dos enterros, as garrafas de ouro em pó encontradas por habitantes de Ribeirão Grande, no leito dos rios dessa bacia, uma vez que nessa área circulava o comércio de mercadorias entre mineiros faiscadores de ouro e tropeiros.  

Fato é que vestígios desse período estão presentes até hoje no desenho dos rios que foram recortados por arrimos de pedras chamados de “encanados”, na toponímia de bairros e cursos dágua; e em armazéns locais em Capão Bonito que no meio de vários utensílios como lampiões, facões e cordas, vendem bateias para aqueles em busca de algumas pequenas pepitas que nessa intensa malha hidrográfica ainda podem encontrar.

Pesquisas Realizadas

  • ALMEIDA, A. De. O Vale do Paranapanema. Revista do IHGB, 1959. v. 245, p. 165–252.CARNEIRO, J. M. A. Primeiro Livro Tombo da Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Paranapanema.
  • CARVALHO FRANCO, F. De A. Bandeiras e bandeirantes de São Paulo. Série 5 Vo ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1940.
  • FACHINI, CRISTINA. Cartografia do Patrimônio na Bacia do Rio das Almas – SP. Tese de Doutorado apresentada ao NEPAM/UNICAMP. 2017.
  • KNECHT, Theodoro. Ouro no Estado de São Paulo, Boletim do Instituto Geográfico e Geológico, São Paulo, n. 26, 1938.
  • PLENS, C. R. “ Água mole em pedra dura , tanto bate até que fura ”: o caminho das águas na catalisação social no Brasil Colonial. R. Museu Arq. Etn., 2016. v. 26, p. 95–114.
  • REIS, G. N. As minas de ouro e a formação das capitanias do sul. Sao Paulo: Via das Artes, 2013.
  • ROBRAHN-GONZÁLEZ, E. M. Programa de diagnóstico do patrimônio arqueológico, histórico e cultural do Parque Estadual Intervales.
  • SAINT–HILAIRE, A. De. Viagem à Província de São Paulo. Resumo das viagens ao Brasil, Província Cisplatina e Missões do Paraguai. SÃO PAULO: LIVRARIA MARTINS, 1940.
  • SCATAMACCHIA, M. C. M. et al. Arqueologia da primeira casa de fundição de ouro do Brasil , Iguape , SP. R. Museu Arq. Etn., 2012. v. 22, p. 111–122.
  • ZOCCHI, P. Paranapanema: da nascente à foz. São Paulo: Audichromo, 2002.

Autoria – Amigos de Ribeirão Grande

  • Dra. Cristina Fachini, pesquisadora da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, pesquisadora associada ao Laboratório de Arqueologia Pública – NEPAM-UNICAMP.
  • Colaboração
  • Sonia Araújo – Coordenadora de Turismo de Ribeirão Grande
  • Zé do Jipe – Proprietário da empresa de Turismo Jipe Zero 4×4
  • Pedro Antônio Junior – Historiador
  • Edil Queiroz de Araujo – Responsável pelo projeto Mapa de Ribeirão Grande

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